Almeida Garrett
Este inferno de amar
Este inferno de amar – como eu amo! –
Quem mo pôs aqui n´alma... quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida – e que a vida destrói –
Como é que se veio a atear,
Quando – ai quando se há de apagar?
Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez... – foi um sonho –
Em que paz tão serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar...
Quem me veio, ai de mim! despertar?
Só me lembra que um dia formoso
Eu passei... dava o Sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz – Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei...
REFERÊNCIAS
GARRETT, A. Folhas caídas. Lisboa: Portugália, 1955. In: CAMPEDELLI, Samira Yousseff; SOUZA, Jesus Barbosa. Literatura, Produção de Textos & Gramática. Volume único. São Paulo: Editora Saraiva, 1998, p. 108.
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terça-feira, 21 de julho de 2009
ARTIGO/Cultura ibero-americana: Literatura Portuguesa
A intertextualidade em Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett
Jóis Alberto *
Autor de livros que inovaram a literatura portuguesa, como “Viagens na Minha Terra”, Almeida Garrett foi o iniciador do Romantismo literário em Portugal, em 1825, quando ele publicou o poema “Camões”, uma biografia romanceada, em versos brancos, do célebre poeta. Em terras lusitanas, o Romantismo durou aproximadamente 40 anos. Terminou por volta de 1865, com a “Questão Coimbrã” ou “Questão do Bom Senso e do Bom Gosto”, encabeçada por Antero de Quental. A citada questão marcou o advento do Realismo em Portugal, em oposição ao Romantismo, já em declínio. Como em outros países europeus, o Romantismo português está relacionado ao liberalismo e à ideologia burguesa. Questões estéticas, políticas, econômicas, culturais e ideológicas às quais Almeida Garrett estava engajado como escritor e político liberal. Garrett fez parte da primeira geração do Romantismo lusitano, ao lado de outros dois grandes escritores daquele país, Alexandre Herculano e Antônio Feliciano de Castilho.
João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett nasceu no Porto, em 4 de fevereiro de 1799. Devido à invasão de Portugal por tropas de Napoleão, a família de Garrett emigrou para os Açores, onde ele fez os primeiros estudos. Estudou direito em Coimbra (1816) e, empolgado com o liberalismo, chamou a atenção como orador. Em 1823 a contra-revolução absolutista levou-o a se exilar na Inglaterra. Foi nessa época em que ele escreveu o citado poema “Camões”. Voltou ainda a Portugal, para fazer jornalismo, mas foi preso e de novo seguiu para a Inglaterra. Em 1832 retornava como combatente da causa liberal. Trabalhou como correspondente no Havre e, em Bruxelas, como encarregado de negócios.(...). Almeida Garrett morreu em Lisboa em 10 de dezembro de 1854.
Viagens na minha terra
Publicado pela primeira vez em 1846, “Viagens na Minha Terra” (usaremos aqui uma edição brasileira de 1997) é uma obra singular, que mescla memórias pessoais, ficção romântica e digressões críticas sobre a realidade social e a história de Portugal. Almeida Garrett começou a escrevê-la na forma de artigos para a “Revista Universal Lisbonense”, depois de uma viagem de passeio à região de Santarém, em 1843. O livro está dividido em 49 capítulos, todos curtos, o que dá agilidade à narrativa, seduzindo aos poucos o leitor para uma viagem ao longo de todo o texto, dividido em dois planos, em meio a digressões do autor. Essas reflexões, de ordem estética, filosófica e política, nas mãos de um escritor de pouco talento ou aos olhos do leitor pouco atento, poderiam tornar o texto enfadonho. Não é o que acontece, porém, com Almeida Garrett, dono de uma cultura erudita e domínio inovador da técnica literária, não só para a época em que ele viveu, mas sobretudo para as gerações seguintes, com repercussões até à atualidade. Em “Viagens na Minha Terra”, Garrett fez um trabalho de citações, referências ao próprio autor e ao leitor, que na atualidade assemelha-se muito ao trabalho de intertextualidade desenvolvido por escritores pós modernos, como por exemplo Ítalo Calvino em “Se um viajante numa noite de inverno”, ou mesmo em narrativas de José Saramago, para mencionar um escritor português da contemporaneidade.
Nesse sentido, podemos citar a análise que Carlos Felipe MOISÉS (2001) faz acerca de “Viagens na Minha Terra”, livro que, segundo ele, pode ser lido, em princípio, como simples relato de viagem: “Se assim o fizer, o leitor acompanhará as andanças da pequena comitiva garrettiana, primeiro singrando águas do Tejo, depois por terra, Ribatejo adentro, passando por Vila Nova da Rainha, Azambuja, Cartaxo, Asseca, até chegar a Santarém - pequenos e pitorescos povoados, descritos com lentidão e bonomia, demorando-se o escritor em associações muito livres, divagações sem conta. O procedimento é marcado por acentuado gosto enciclopédico, boa dose de eruditismo exibicionista, que o leva, por exemplo, a citar inúmeros autores, de vários idiomas, inclusive o grego, no original”. Esse exibicionismo é uma pose, como assinala MOISÉS (op. cit. pags. 114 e 115), típica do dândi especial, mundano e elegante, vaidoso, requintadamente insubmisso, como era o próprio Almeida Garrett. Mas, Garrett assume essa pose com uma certa auto-ironia, como por exemplo ocorre nos resumos introdutórios colocados no início de cada capítulo, auto-ironia e condescendência que se caracterizam melhor quando ele exagera esse recurso estilístico: “(...) desce o A. destas grandes e sublimes considerações para as realidades materiais da vida (...)”.
Ainda de acordo com Carlos Felipe MOISÉS (idem, p. 117), no primeiro plano “Viagens na Minha Terra” é um despretensioso relato de viagem, ao qual se entrelaça outro relato, o de uma idealizada fantasia amorosa (o amor de Carlos e Joaninha). Já no segundo plano, o livro não passa de pretexto para que o autor possa erguer um largo painel das transformações por que passa Portugal nas primeiras décadas do século 19, por força da ruidosa e tumultuada introdução da Nova Era, liberal e burguesa. Em Santarém, cujo vale e chegada da comitiva são descritos no cap. 10, o narrador fica sabendo da história de Joaninha e de seu primo Carlos, envolvidos em uma paixão que não tem final feliz. A visão de amor acionada por Garrett é de extrema idealização e baseia-se na irrestrita fidelidade que os amantes devem jurar a seus votos. A de Joaninha é mais certa e infalível que a luz do sol: a figura feminina concentra a forma suprema de idealização romântica. Já a fidelidade de Carlos será posta à prova, sucessiva e alternadamente, ora pela vocação Don-juanesca do herói, ora por seus deveres de soldado, fervorosamente empenhado na causa liberal.
Carlos é o herói atormentado pela honesta intenção de conciliar aspirações inconciliáveis: ou bem serve à Joaninha, ou bem serve à Pátria, ou bem serve ao impulso irrefreável das conquistas amorosas. Nesse diapasão, a narrativa da fantasia sentimental se estende até o capítulo 26. Qual terá sido o destino de Carlos e Joaninha e de seu amor ao mesmo tempo incorruptível e impossível? Antes da revelação, o autor nos traz de volta à primeira viagem e informa que a comitiva segue caminho na direção de Santarém. Em meio a digressões e interrupções várias, sugerindo que as duas viagens devem entrelaçar-se, a narrativa retoma, no cap. 32, as desventuras amorosas de Joaninha e Carlos, aparentemente rematadas quatro capítulos depois.
Como sabemos, o Romantismo elevou a figura do poeta a um papel central de profeta e visionário. A apreensão da verdade deveria se dar diretamente a partir da experiência sensorial e emocional do escritor; a imitação dos modelos clássicos foi abandonada. São criações românticas o mito do artista e do amante incompreendidos e rejeitados pela sociedade ou pela amada. É conhecido como Sturm und Drang (tempestade e tensão) o movimento pré romântico que entre 1770 e 1780 propiciou as bases para o desenvolvimento do novo estilo na Alemanha e depois no resto do mundo. Goethe, autor de “Os sofrimentos do jovem Werther” (1774), se destaca numa geração de grandes escritores, na qual figuram Tieck, Novalis, e Hölderlin. (...)
A literatura romântica britânica tem como uma das fontes a novela gótica, na medida em que as reconstruções de ambientes medievais, os cenários históricos e exóticos nessas obras definiram algumas das características do romantismo. Exemplo disso são os romances históricos de Walter Scott, que transcenderam as fronteiras britânicas. Em Portugal, Almeida Garrett também escreveu romance histórico, gênero no qual o grande nome da literatura portuguesa é Alexandre Herculano, autor de “Eurico, o Presbítero”. Quanto à poesia romântica, Wordsworth e Coleridge criaram uma teoria poética baseada no livre fluxo das emoções intensas e na fantasia, que norteou a produção de Keats, Shelley e Lorde Byron. Este último poeta é citado por Garrett logo no primeiro capítulo de “Viagens na minha terra”: “(...) Não me lembro que Lorde Byron celebrasse nunca o prazer de fumar a bordo. É notável esquecimento no poeta mais embarcadiço, mais marujo que ainda houve, e que até cantou o enjôo, a mais prosaica e nauseante das misérias da vida! Pois num dia destes, sentir na face e nos cabelos a brisa refrigerante que passou por cima da água enquanto se aspiram molemente as narcóticas exalações de um bom cigarro de Havana, é uma das poucas coisas sinceramente boas que há neste mundo” (GARRETT, op. cit. p. 39)
Na França, o romantismo teve como um dos precursores o filósofo Jean-Jacques Rousseau, que defendia um modo de vida natural, sem a influência alienante da civilização. Os românticos franceses foram liderados por Victor Hugo, cujo prefácio ao drama Cromwell (1827) é considerado um manifesto literário. (...) Na Rússia, Espanha e Polônia, a literatura romântica também se desenvolveu. Na Itália, Portugal e Estados Unidos, o movimento teve forte caráter nacionalista. (...).
O romantismo na literatura portuguesa
A literatura portuguesa caracteriza-se desde os primórdios pela riqueza e variedade na poesia lírica, pela qualidade literária dos escritos históricos (...). Em Portugal, o crescimento econômico decorrente dos descobrimentos e da intensificação do comércio favoreceu a burguesia e enriqueceu também a vida intelectual, mas não proporcionou livre acesso aos ideais do Renascimento e do Humanismo. Estes ideais, na península ibérica, foram obscurecidos pela Inquisição e pela Companhia de Jesus, dos jesuítas. Apesar dessas forças repressoras, destacaram-se nomes como Sá de Miranda (...); Gil Vicente e Camões, escritores que apostavam no homem e na razão, na liberdade e na arte.
Na evolução da literatura portuguesa não se encontra movimento mais complexo que o Romantismo, que, como já vimos, liga-se às revoluções sociais pelas quais a burguesia se impôs às monarquias européias e dominou o processo político. (...). As duas grandes figuras românticas em Portugal, Almeida Garrett e Alexandre Herculano, foram ambos exilados liberais durante o governo de D. Miguel e voltaram à pátria como soldados do exército libertador. (...). Em todo o período romântico duas tendências se defrontam e se prolongam até o fim do século, já em pleno naturalismo: o lirismo pessoal, confessional, e o de inspiração universalista - seja religiosa, social ou científica. Essa contradição ainda será encontrada em Guerra Junqueiro, embora este pertença cronologicamente à Geração de 70. Da mesma forma, pode-se classificar como romântica a poesia de Antero de Quental. Somente com Cesário Verde (“O livro de Cesário Verde”, póstumo), contemporâneo de ambos, o Romantismo foi ultrapassado.
Bom senso e bom gosto
O espírito contemporâneo nas letras portuguesas teve seu ingresso mediante uma polêmica que resumiu antagonismos ideológicos e literários: a Questão Coimbrã, surgida em 1865. Em nome do status quo, o academicista Antonio Feliciano de Castilho atacou, em carta, a temática de poetas publicados por um editor de Coimbra e, na ocasião, fez referências depreciativas a Teófilo Braga e Antero de Quental. Este último, em carta aberta a Castilho, sob o título “Bom senso e bom gosto”, taxou a poesia de Castilho de imobilista e provinciana e defendeu as idéias e ideais do fim do século, a ciência, o realismo e as conseqüentes mudanças na literatura. Com outro texto, “A dignidade das letras e as literaturas oficiais”, Antero aprofundou a questão e, por sua agressividade, dividiu a opinião dos intelectuais. Camilo Castelo Branco e Ramalho Ortigão intervieram a favor de Castilho, enquanto Eça de Queirós apoiou Antero de Quental.
Na década de 1870, ou seja após a morte de Almeida Garrett e em meio de intensas atividades político-partidárias, Portugal, às voltas com problemas para administrar seus domínios na África, vivia uma grande movimentação intelectual, que se traduzia numa profusão de debates e publicações. Nesse contexto, destaca-se a chamada Geração de 70, uma das mais brilhantes da literatura portuguesa - que reuniu Antero de Quental, Eça de Queirós, Guerra Junqueiro, dentre outros. Essa geração propunha-se discutir as grandes transformações da Europa, em particular na França, na Alemanha e na Inglaterra, e incorporá-las na base de seu trabalho. O romantismo sobrevivia a duras penas, enquanto se debatia Michelet, Renan, Proudhon, Schelling, Hegel, Feuerbach, Darwin... Importavam-se livros em quantidade, traduzia-se; a Igreja tornava-se objeto de críticas... Sucediam-se os romances de Eça de Queirós, os sonetos alegóricos e autobiográficos de Antero de Quental... (...)
À época do romantismo português, e europeu de modo geral, o Brasil ainda mantinha estruturas de latifúndio, escravismo, economia de exportação e uma monarquia conservadora, remanescentes do colonialismo, condições socioculturais muito diferentes das encontradas nos países da vanguarda romântica européia, onde a ascensão da burguesia como classe hegemônica havia se consolidado e a revolução abria as portas de uma nova era. A partir de 1808, a permanência da corte portuguesa no Brasil transformou cultural e economicamente a vida da colônia, com a implantação da imprensa e as primeiras iniciativas para o ensino universitário. O subseqüente processo de independência, em 1822, ativou ainda mais a efervescência intelectual e nacionalista já instalada. Foi nesse contexto, e a partir da década seguinte, que surgiu o romantismo brasileiro, mas isso já é outra história.
REFERÊNCIAS
GARRET, Almeida – Viagens na Minha Terra – edição dirigida e apresentada por Antônio Soares Amora. Rio de Janeiro: Ediouro; São Paulo: Publifolha, 1997.
MOISÉS, Carlos Felipe – O Desconcerto do Mundo, do Renascimento ao Surrealismo. São Paulo: Escrituras Editora, 2001.
*Texto apresentado originalmente como trabalho em grupo, de Seminário da disciplina Literatura Portuguesa II, do curso de Letras da UFRN, em 2007. Do grupo, participaram as colegas de turma Milene Cristina e Ozejane... Para a publicação aqui no blogue fiz algumas mudanças, como o título, e cortei alguns trechos para diminuir o tamanho.
Jóis Alberto *
Autor de livros que inovaram a literatura portuguesa, como “Viagens na Minha Terra”, Almeida Garrett foi o iniciador do Romantismo literário em Portugal, em 1825, quando ele publicou o poema “Camões”, uma biografia romanceada, em versos brancos, do célebre poeta. Em terras lusitanas, o Romantismo durou aproximadamente 40 anos. Terminou por volta de 1865, com a “Questão Coimbrã” ou “Questão do Bom Senso e do Bom Gosto”, encabeçada por Antero de Quental. A citada questão marcou o advento do Realismo em Portugal, em oposição ao Romantismo, já em declínio. Como em outros países europeus, o Romantismo português está relacionado ao liberalismo e à ideologia burguesa. Questões estéticas, políticas, econômicas, culturais e ideológicas às quais Almeida Garrett estava engajado como escritor e político liberal. Garrett fez parte da primeira geração do Romantismo lusitano, ao lado de outros dois grandes escritores daquele país, Alexandre Herculano e Antônio Feliciano de Castilho.
João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett nasceu no Porto, em 4 de fevereiro de 1799. Devido à invasão de Portugal por tropas de Napoleão, a família de Garrett emigrou para os Açores, onde ele fez os primeiros estudos. Estudou direito em Coimbra (1816) e, empolgado com o liberalismo, chamou a atenção como orador. Em 1823 a contra-revolução absolutista levou-o a se exilar na Inglaterra. Foi nessa época em que ele escreveu o citado poema “Camões”. Voltou ainda a Portugal, para fazer jornalismo, mas foi preso e de novo seguiu para a Inglaterra. Em 1832 retornava como combatente da causa liberal. Trabalhou como correspondente no Havre e, em Bruxelas, como encarregado de negócios.(...). Almeida Garrett morreu em Lisboa em 10 de dezembro de 1854.
Viagens na minha terra
Publicado pela primeira vez em 1846, “Viagens na Minha Terra” (usaremos aqui uma edição brasileira de 1997) é uma obra singular, que mescla memórias pessoais, ficção romântica e digressões críticas sobre a realidade social e a história de Portugal. Almeida Garrett começou a escrevê-la na forma de artigos para a “Revista Universal Lisbonense”, depois de uma viagem de passeio à região de Santarém, em 1843. O livro está dividido em 49 capítulos, todos curtos, o que dá agilidade à narrativa, seduzindo aos poucos o leitor para uma viagem ao longo de todo o texto, dividido em dois planos, em meio a digressões do autor. Essas reflexões, de ordem estética, filosófica e política, nas mãos de um escritor de pouco talento ou aos olhos do leitor pouco atento, poderiam tornar o texto enfadonho. Não é o que acontece, porém, com Almeida Garrett, dono de uma cultura erudita e domínio inovador da técnica literária, não só para a época em que ele viveu, mas sobretudo para as gerações seguintes, com repercussões até à atualidade. Em “Viagens na Minha Terra”, Garrett fez um trabalho de citações, referências ao próprio autor e ao leitor, que na atualidade assemelha-se muito ao trabalho de intertextualidade desenvolvido por escritores pós modernos, como por exemplo Ítalo Calvino em “Se um viajante numa noite de inverno”, ou mesmo em narrativas de José Saramago, para mencionar um escritor português da contemporaneidade.
Nesse sentido, podemos citar a análise que Carlos Felipe MOISÉS (2001) faz acerca de “Viagens na Minha Terra”, livro que, segundo ele, pode ser lido, em princípio, como simples relato de viagem: “Se assim o fizer, o leitor acompanhará as andanças da pequena comitiva garrettiana, primeiro singrando águas do Tejo, depois por terra, Ribatejo adentro, passando por Vila Nova da Rainha, Azambuja, Cartaxo, Asseca, até chegar a Santarém - pequenos e pitorescos povoados, descritos com lentidão e bonomia, demorando-se o escritor em associações muito livres, divagações sem conta. O procedimento é marcado por acentuado gosto enciclopédico, boa dose de eruditismo exibicionista, que o leva, por exemplo, a citar inúmeros autores, de vários idiomas, inclusive o grego, no original”. Esse exibicionismo é uma pose, como assinala MOISÉS (op. cit. pags. 114 e 115), típica do dândi especial, mundano e elegante, vaidoso, requintadamente insubmisso, como era o próprio Almeida Garrett. Mas, Garrett assume essa pose com uma certa auto-ironia, como por exemplo ocorre nos resumos introdutórios colocados no início de cada capítulo, auto-ironia e condescendência que se caracterizam melhor quando ele exagera esse recurso estilístico: “(...) desce o A. destas grandes e sublimes considerações para as realidades materiais da vida (...)”.
Ainda de acordo com Carlos Felipe MOISÉS (idem, p. 117), no primeiro plano “Viagens na Minha Terra” é um despretensioso relato de viagem, ao qual se entrelaça outro relato, o de uma idealizada fantasia amorosa (o amor de Carlos e Joaninha). Já no segundo plano, o livro não passa de pretexto para que o autor possa erguer um largo painel das transformações por que passa Portugal nas primeiras décadas do século 19, por força da ruidosa e tumultuada introdução da Nova Era, liberal e burguesa. Em Santarém, cujo vale e chegada da comitiva são descritos no cap. 10, o narrador fica sabendo da história de Joaninha e de seu primo Carlos, envolvidos em uma paixão que não tem final feliz. A visão de amor acionada por Garrett é de extrema idealização e baseia-se na irrestrita fidelidade que os amantes devem jurar a seus votos. A de Joaninha é mais certa e infalível que a luz do sol: a figura feminina concentra a forma suprema de idealização romântica. Já a fidelidade de Carlos será posta à prova, sucessiva e alternadamente, ora pela vocação Don-juanesca do herói, ora por seus deveres de soldado, fervorosamente empenhado na causa liberal.
Carlos é o herói atormentado pela honesta intenção de conciliar aspirações inconciliáveis: ou bem serve à Joaninha, ou bem serve à Pátria, ou bem serve ao impulso irrefreável das conquistas amorosas. Nesse diapasão, a narrativa da fantasia sentimental se estende até o capítulo 26. Qual terá sido o destino de Carlos e Joaninha e de seu amor ao mesmo tempo incorruptível e impossível? Antes da revelação, o autor nos traz de volta à primeira viagem e informa que a comitiva segue caminho na direção de Santarém. Em meio a digressões e interrupções várias, sugerindo que as duas viagens devem entrelaçar-se, a narrativa retoma, no cap. 32, as desventuras amorosas de Joaninha e Carlos, aparentemente rematadas quatro capítulos depois.
Como sabemos, o Romantismo elevou a figura do poeta a um papel central de profeta e visionário. A apreensão da verdade deveria se dar diretamente a partir da experiência sensorial e emocional do escritor; a imitação dos modelos clássicos foi abandonada. São criações românticas o mito do artista e do amante incompreendidos e rejeitados pela sociedade ou pela amada. É conhecido como Sturm und Drang (tempestade e tensão) o movimento pré romântico que entre 1770 e 1780 propiciou as bases para o desenvolvimento do novo estilo na Alemanha e depois no resto do mundo. Goethe, autor de “Os sofrimentos do jovem Werther” (1774), se destaca numa geração de grandes escritores, na qual figuram Tieck, Novalis, e Hölderlin. (...)
A literatura romântica britânica tem como uma das fontes a novela gótica, na medida em que as reconstruções de ambientes medievais, os cenários históricos e exóticos nessas obras definiram algumas das características do romantismo. Exemplo disso são os romances históricos de Walter Scott, que transcenderam as fronteiras britânicas. Em Portugal, Almeida Garrett também escreveu romance histórico, gênero no qual o grande nome da literatura portuguesa é Alexandre Herculano, autor de “Eurico, o Presbítero”. Quanto à poesia romântica, Wordsworth e Coleridge criaram uma teoria poética baseada no livre fluxo das emoções intensas e na fantasia, que norteou a produção de Keats, Shelley e Lorde Byron. Este último poeta é citado por Garrett logo no primeiro capítulo de “Viagens na minha terra”: “(...) Não me lembro que Lorde Byron celebrasse nunca o prazer de fumar a bordo. É notável esquecimento no poeta mais embarcadiço, mais marujo que ainda houve, e que até cantou o enjôo, a mais prosaica e nauseante das misérias da vida! Pois num dia destes, sentir na face e nos cabelos a brisa refrigerante que passou por cima da água enquanto se aspiram molemente as narcóticas exalações de um bom cigarro de Havana, é uma das poucas coisas sinceramente boas que há neste mundo” (GARRETT, op. cit. p. 39)
Na França, o romantismo teve como um dos precursores o filósofo Jean-Jacques Rousseau, que defendia um modo de vida natural, sem a influência alienante da civilização. Os românticos franceses foram liderados por Victor Hugo, cujo prefácio ao drama Cromwell (1827) é considerado um manifesto literário. (...) Na Rússia, Espanha e Polônia, a literatura romântica também se desenvolveu. Na Itália, Portugal e Estados Unidos, o movimento teve forte caráter nacionalista. (...).
O romantismo na literatura portuguesa
A literatura portuguesa caracteriza-se desde os primórdios pela riqueza e variedade na poesia lírica, pela qualidade literária dos escritos históricos (...). Em Portugal, o crescimento econômico decorrente dos descobrimentos e da intensificação do comércio favoreceu a burguesia e enriqueceu também a vida intelectual, mas não proporcionou livre acesso aos ideais do Renascimento e do Humanismo. Estes ideais, na península ibérica, foram obscurecidos pela Inquisição e pela Companhia de Jesus, dos jesuítas. Apesar dessas forças repressoras, destacaram-se nomes como Sá de Miranda (...); Gil Vicente e Camões, escritores que apostavam no homem e na razão, na liberdade e na arte.
Na evolução da literatura portuguesa não se encontra movimento mais complexo que o Romantismo, que, como já vimos, liga-se às revoluções sociais pelas quais a burguesia se impôs às monarquias européias e dominou o processo político. (...). As duas grandes figuras românticas em Portugal, Almeida Garrett e Alexandre Herculano, foram ambos exilados liberais durante o governo de D. Miguel e voltaram à pátria como soldados do exército libertador. (...). Em todo o período romântico duas tendências se defrontam e se prolongam até o fim do século, já em pleno naturalismo: o lirismo pessoal, confessional, e o de inspiração universalista - seja religiosa, social ou científica. Essa contradição ainda será encontrada em Guerra Junqueiro, embora este pertença cronologicamente à Geração de 70. Da mesma forma, pode-se classificar como romântica a poesia de Antero de Quental. Somente com Cesário Verde (“O livro de Cesário Verde”, póstumo), contemporâneo de ambos, o Romantismo foi ultrapassado.
Bom senso e bom gosto
O espírito contemporâneo nas letras portuguesas teve seu ingresso mediante uma polêmica que resumiu antagonismos ideológicos e literários: a Questão Coimbrã, surgida em 1865. Em nome do status quo, o academicista Antonio Feliciano de Castilho atacou, em carta, a temática de poetas publicados por um editor de Coimbra e, na ocasião, fez referências depreciativas a Teófilo Braga e Antero de Quental. Este último, em carta aberta a Castilho, sob o título “Bom senso e bom gosto”, taxou a poesia de Castilho de imobilista e provinciana e defendeu as idéias e ideais do fim do século, a ciência, o realismo e as conseqüentes mudanças na literatura. Com outro texto, “A dignidade das letras e as literaturas oficiais”, Antero aprofundou a questão e, por sua agressividade, dividiu a opinião dos intelectuais. Camilo Castelo Branco e Ramalho Ortigão intervieram a favor de Castilho, enquanto Eça de Queirós apoiou Antero de Quental.
Na década de 1870, ou seja após a morte de Almeida Garrett e em meio de intensas atividades político-partidárias, Portugal, às voltas com problemas para administrar seus domínios na África, vivia uma grande movimentação intelectual, que se traduzia numa profusão de debates e publicações. Nesse contexto, destaca-se a chamada Geração de 70, uma das mais brilhantes da literatura portuguesa - que reuniu Antero de Quental, Eça de Queirós, Guerra Junqueiro, dentre outros. Essa geração propunha-se discutir as grandes transformações da Europa, em particular na França, na Alemanha e na Inglaterra, e incorporá-las na base de seu trabalho. O romantismo sobrevivia a duras penas, enquanto se debatia Michelet, Renan, Proudhon, Schelling, Hegel, Feuerbach, Darwin... Importavam-se livros em quantidade, traduzia-se; a Igreja tornava-se objeto de críticas... Sucediam-se os romances de Eça de Queirós, os sonetos alegóricos e autobiográficos de Antero de Quental... (...)
À época do romantismo português, e europeu de modo geral, o Brasil ainda mantinha estruturas de latifúndio, escravismo, economia de exportação e uma monarquia conservadora, remanescentes do colonialismo, condições socioculturais muito diferentes das encontradas nos países da vanguarda romântica européia, onde a ascensão da burguesia como classe hegemônica havia se consolidado e a revolução abria as portas de uma nova era. A partir de 1808, a permanência da corte portuguesa no Brasil transformou cultural e economicamente a vida da colônia, com a implantação da imprensa e as primeiras iniciativas para o ensino universitário. O subseqüente processo de independência, em 1822, ativou ainda mais a efervescência intelectual e nacionalista já instalada. Foi nesse contexto, e a partir da década seguinte, que surgiu o romantismo brasileiro, mas isso já é outra história.
REFERÊNCIAS
GARRET, Almeida – Viagens na Minha Terra – edição dirigida e apresentada por Antônio Soares Amora. Rio de Janeiro: Ediouro; São Paulo: Publifolha, 1997.
MOISÉS, Carlos Felipe – O Desconcerto do Mundo, do Renascimento ao Surrealismo. São Paulo: Escrituras Editora, 2001.
*Texto apresentado originalmente como trabalho em grupo, de Seminário da disciplina Literatura Portuguesa II, do curso de Letras da UFRN, em 2007. Do grupo, participaram as colegas de turma Milene Cristina e Ozejane... Para a publicação aqui no blogue fiz algumas mudanças, como o título, e cortei alguns trechos para diminuir o tamanho.
domingo, 19 de julho de 2009
MANIFESTO ESTÉTICO DE BANDEIRA
Manuel Bandeira
Poética
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo
E manifestações de apreço ao Sr. Diretor
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho
vernáculo de um vocábulo
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar
Com cem modelos de cartas e as diferentes
Maneiras de agradar às mulheres, etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clown de Shakespeare
- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
Poética
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo
E manifestações de apreço ao Sr. Diretor
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho
vernáculo de um vocábulo
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar
Com cem modelos de cartas e as diferentes
Maneiras de agradar às mulheres, etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clown de Shakespeare
- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
sexta-feira, 17 de julho de 2009
ARTIGO/Reforma psiquiátrica
Por uma psiquiatria mais humana
e atualizada nos hospitais de Natal
Jóis Alberto
É deplorável a atual situação do atendimento de pacientes em tratamento psiquiátrico nos hospitais públicos de Natal, como tem mostrado, com imagens contundentes, reportagens em telejornais da cidade, desde que o Conselho Regional de Medicina do RN (Cremern) interditou enfermarias do Hospital Colônia Dr. João Machado, em Morro Branco. Após essa primeira interdição, noticiada há cerca de um mês, o atendimento aos pacientes foi transferido para o Hospital dos Pescadores, nas Rocas, onde posteriormente o Cremern realizou outra interdição, possibilitando retorno do atendimento ao pronto socorro psiquiátrico do Hospital Colônia desde a noite de quarta-feira (16/07) passada. Nesse período, se anunciou que pacientes em surtos psicóticos de urgência também seriam atendidos e internados em clínicas psiquiátricas particulares, mas foi uma dificuldade grande para uma família internar numa dessas clínicas um rapaz em grave crise psicótica, levado por ambulância do SAMU, conforme mostraram recentemente imagens do flagrante de um dos telejornais. Somente a muito custo o rapaz foi internado.
Será que, após essas interdições e constrangimentos, as providências tomadas pelas secretarias municipal e estadual de saúde vão melhorar a situação dos estabelecimentos de tratamento psiquiátrico em Natal (eu uso aqui o termo “estabelecimento” porque manicômio, instituição arcaica, é uma palavra que, pela reforma, tende a cair em desuso)? Bom, espero que sim, embora eu seja um tanto cético em relação a isso. Minha experiência como repórter de jornais locais mostra que, infelizmente, são muito lentas as melhorias que ocorrem nos setores de Saúde e Educação pública na cidade – neste último setor, como professor estagiário de Português na rede estadual de ensino, tenho visto de perto o drama da Educação no ensino fundamental em Natal. Mas, voltando à questão do atendimento psiquiátrico (em CAPs – Centro de Atenção Psicossocial – e hospitais públicos) da cidade. Como melhorar esse atendimento? Essa é uma questão sempre atual e, no Brasil contemporâneo, a resposta passa necessariamente pelas propostas da Reforma Psiquiátrica e da nova legislação federal específica, mas não se limita a elas, já que o assunto é muito polêmico (necessidade ou não de internação; cronificação da “doença”; efeitos colaterais dos remédios, embora hoje os riscos desses efeitos sejam menores do que antigamente, graças aos avanços das neurociências, etc, etc).
Dentre as terapêuticas para os transtornos mentais, tenho inicialmente uma simpatia maior pela Psicanálise, que, como se sabe, após Sigmund Freud teve várias escolas criadas por discípulos dissidentes, como Alfred Adler, Carl Gustav Jung e Wilhelm Reich, dentre outros. No caso de discípulos com atuação mais recente, Jacques Lacan, por exemplo, este retoma a obra de Freud buscando fundamentações não apenas na biologia (genética, hereditariedade, sinapses, etc), como outros médicos, psiquiatras e psicólogos... Lacan se fundamenta principalmente na lingüística de Ferdinand de Saussure e na antropologia estrutural de Claude Lévi-Strauss. Para Lacan, que é um dos grandes pensadores do estruturalismo, o inconsciente é estruturado como uma linguagem. Posteriormente, o pensamento lacaniano ampliou as suas referências teóricas com a matemática e a lógica...
Na opinião de psicólogos e psiquiatras ortodoxos – especialmente os que na atualidade são ligados à instigante linha cognitivo-comportamental, de forte inspiração neo-behaviorista e sintonizada com as neurociências – a psicanálise não tem rigor científico, ou melhor, não tem consistência científica. Para quem acha que as teorias e práticas psicanalíticas de Freud estão mais para literatura do que para terapêutica das chamadas doenças mentais, opinião de boa parte dos psicólogos e psiquiatras mais ortodoxos, é bom informar sobre o diálogo crítico que o filósofo alemão Martin Heidegger – considerado por muitos o grande pensador do século 20 – mantém com a psicanálise, como mostram os trabalhos do psiquiatra suíço Medard Boss, no livro Seminários de Zollikon. Binswanger, outro psiquiatra que dialoga com o pensamento existencialista, em especial o pensamento heideggeriano, é mais conhecido por psiquiatras ortodoxos do que M. Boss. Tive um primeiro contato com o trabalho de Boss em 2004, durante um dos seminários do curso de Especialização em Filosofia da Pós Graduação em Filosofia da UFRN, ministrado pelo professor da UFPE Vincenzo Di Matteo. Esse professor mostra como Heidegger critica alguns aspectos da obra de Freud e concorda com outros: “a leitura heideggeriana, fundamentalmente, é a que predominou na tradição fenomenológica até a década de sessenta com seu ‘sim’ ao método psicanalítico e seu ‘não’ à doutrina (teoria)”. Em resumo, de acordo com Vincenzo Di Matteo, as críticas à concepção do sujeito moderno aproximam a ontologia fundamental de Heidegger da metapsicologia de Freud. Segundo Heidegger, no entanto, a análise freudiana do psiquismo mantém-se aprisionada à metafísica ocidental. Ou seja, Di Matteo aponta semelhanças e diferenças entre as análises desses dois autores, questionando também o destino das heranças deixadas por eles. Portanto, ao analisar essas questões, o que pretendo argumentar aqui é de que ainda se pode extrair valiosos ensinamentos do legado da psicanálise, não só nos aspectos clínicos mas também em relação à filosofia e à cultura de modo geral.
O mal-estar na civilização
Nesse sentido, um dos trabalhos de Freud mais estudados sobre essa relação – psicanálise, sociedade e cultura – é O mal-estar na civilização, em que analisa a possibilidade de felicidade, levando em conta o fato de que a sociedade impõe uma drástica redução das satisfações individuais. Além dessa, mais duas importantes obras dele abordam a problemática sociocultural: Totem e Tabu, onde o assunto é a origem da sociedade; Psicologia coletiva e análise do ego, na qual faz a análise dos motivos que determinam a formação e a persistência dos grupos humanos. Autores ligados à Escola de Frankfurt, como Herbert Marcuse têm livros sobre as relações da psicanálise e cultura. Um dos livros em que Marcuse aborda a questão tem por título exatamente Cultura e Psicanálise (2001), reunindo ensaios acerca de temas como a função ideológica da cultura e a dominação dos indivíduos pela tecnociência a serviço do capital.
De autores brasileiros, um livro importante sobre esse assunto é o de Renato Mezan, Freud, pensador da cultura. Mezan é autor também de Sigmund Freud – A conquista do proibido, uma biografia do fundador da psicanálise, um livro pequeno no tamanho, mas valioso como introdução para leigos no assunto. É um dos títulos da excelente coleção Encanto Radical (editora Brasiliense), lançada nos anos 80 e que, após alguns anos esgotada, está sendo relançada em 2009. Nos anos 80, circulava a Rádice, uma das melhores revistas de psicologia já editadas no Brasil, responsável pela divulgação, no País, de renomados autores da antipsiquiatria, como Cooper (também ligado à psicoterapia existencial) e Basaglia... Hoje, infelizmente, pouco se fala da antipsiquiatria nos meios acadêmicos, mas ela deu uma contribuição importantíssima para uma maior humanização do trabalho psiquiátrico, não só com a luta antimanicomial, mas também nas abordagens teóricas. Nesse sentido, é bastante conhecido e igualmente importante o trabalho que a doutora Nise da Silveira, de formação junguiana, desenvolveu no Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro, onde estão trabalhos artísticos de pessoas portadoras de esquizofrenia tratadas por ela. Nise, por exemplo, não considerava a esquizofrenia como uma doença, mas como “um estado do Ser”. E, como na visão de Heidegger a linguagem é casa do Ser e que nessa morada habita o homem, vale registrar que, na contemporaneidade, Jurandir Freire Costa é um dos grandes teóricos brasileiros da psicanálise pragmática, que tem como uma das fontes, além do pensamento freudiano, a lingüística pragmática.
e atualizada nos hospitais de Natal
Jóis Alberto
É deplorável a atual situação do atendimento de pacientes em tratamento psiquiátrico nos hospitais públicos de Natal, como tem mostrado, com imagens contundentes, reportagens em telejornais da cidade, desde que o Conselho Regional de Medicina do RN (Cremern) interditou enfermarias do Hospital Colônia Dr. João Machado, em Morro Branco. Após essa primeira interdição, noticiada há cerca de um mês, o atendimento aos pacientes foi transferido para o Hospital dos Pescadores, nas Rocas, onde posteriormente o Cremern realizou outra interdição, possibilitando retorno do atendimento ao pronto socorro psiquiátrico do Hospital Colônia desde a noite de quarta-feira (16/07) passada. Nesse período, se anunciou que pacientes em surtos psicóticos de urgência também seriam atendidos e internados em clínicas psiquiátricas particulares, mas foi uma dificuldade grande para uma família internar numa dessas clínicas um rapaz em grave crise psicótica, levado por ambulância do SAMU, conforme mostraram recentemente imagens do flagrante de um dos telejornais. Somente a muito custo o rapaz foi internado.
Será que, após essas interdições e constrangimentos, as providências tomadas pelas secretarias municipal e estadual de saúde vão melhorar a situação dos estabelecimentos de tratamento psiquiátrico em Natal (eu uso aqui o termo “estabelecimento” porque manicômio, instituição arcaica, é uma palavra que, pela reforma, tende a cair em desuso)? Bom, espero que sim, embora eu seja um tanto cético em relação a isso. Minha experiência como repórter de jornais locais mostra que, infelizmente, são muito lentas as melhorias que ocorrem nos setores de Saúde e Educação pública na cidade – neste último setor, como professor estagiário de Português na rede estadual de ensino, tenho visto de perto o drama da Educação no ensino fundamental em Natal. Mas, voltando à questão do atendimento psiquiátrico (em CAPs – Centro de Atenção Psicossocial – e hospitais públicos) da cidade. Como melhorar esse atendimento? Essa é uma questão sempre atual e, no Brasil contemporâneo, a resposta passa necessariamente pelas propostas da Reforma Psiquiátrica e da nova legislação federal específica, mas não se limita a elas, já que o assunto é muito polêmico (necessidade ou não de internação; cronificação da “doença”; efeitos colaterais dos remédios, embora hoje os riscos desses efeitos sejam menores do que antigamente, graças aos avanços das neurociências, etc, etc).
Dentre as terapêuticas para os transtornos mentais, tenho inicialmente uma simpatia maior pela Psicanálise, que, como se sabe, após Sigmund Freud teve várias escolas criadas por discípulos dissidentes, como Alfred Adler, Carl Gustav Jung e Wilhelm Reich, dentre outros. No caso de discípulos com atuação mais recente, Jacques Lacan, por exemplo, este retoma a obra de Freud buscando fundamentações não apenas na biologia (genética, hereditariedade, sinapses, etc), como outros médicos, psiquiatras e psicólogos... Lacan se fundamenta principalmente na lingüística de Ferdinand de Saussure e na antropologia estrutural de Claude Lévi-Strauss. Para Lacan, que é um dos grandes pensadores do estruturalismo, o inconsciente é estruturado como uma linguagem. Posteriormente, o pensamento lacaniano ampliou as suas referências teóricas com a matemática e a lógica...
Na opinião de psicólogos e psiquiatras ortodoxos – especialmente os que na atualidade são ligados à instigante linha cognitivo-comportamental, de forte inspiração neo-behaviorista e sintonizada com as neurociências – a psicanálise não tem rigor científico, ou melhor, não tem consistência científica. Para quem acha que as teorias e práticas psicanalíticas de Freud estão mais para literatura do que para terapêutica das chamadas doenças mentais, opinião de boa parte dos psicólogos e psiquiatras mais ortodoxos, é bom informar sobre o diálogo crítico que o filósofo alemão Martin Heidegger – considerado por muitos o grande pensador do século 20 – mantém com a psicanálise, como mostram os trabalhos do psiquiatra suíço Medard Boss, no livro Seminários de Zollikon. Binswanger, outro psiquiatra que dialoga com o pensamento existencialista, em especial o pensamento heideggeriano, é mais conhecido por psiquiatras ortodoxos do que M. Boss. Tive um primeiro contato com o trabalho de Boss em 2004, durante um dos seminários do curso de Especialização em Filosofia da Pós Graduação em Filosofia da UFRN, ministrado pelo professor da UFPE Vincenzo Di Matteo. Esse professor mostra como Heidegger critica alguns aspectos da obra de Freud e concorda com outros: “a leitura heideggeriana, fundamentalmente, é a que predominou na tradição fenomenológica até a década de sessenta com seu ‘sim’ ao método psicanalítico e seu ‘não’ à doutrina (teoria)”. Em resumo, de acordo com Vincenzo Di Matteo, as críticas à concepção do sujeito moderno aproximam a ontologia fundamental de Heidegger da metapsicologia de Freud. Segundo Heidegger, no entanto, a análise freudiana do psiquismo mantém-se aprisionada à metafísica ocidental. Ou seja, Di Matteo aponta semelhanças e diferenças entre as análises desses dois autores, questionando também o destino das heranças deixadas por eles. Portanto, ao analisar essas questões, o que pretendo argumentar aqui é de que ainda se pode extrair valiosos ensinamentos do legado da psicanálise, não só nos aspectos clínicos mas também em relação à filosofia e à cultura de modo geral.
O mal-estar na civilização
Nesse sentido, um dos trabalhos de Freud mais estudados sobre essa relação – psicanálise, sociedade e cultura – é O mal-estar na civilização, em que analisa a possibilidade de felicidade, levando em conta o fato de que a sociedade impõe uma drástica redução das satisfações individuais. Além dessa, mais duas importantes obras dele abordam a problemática sociocultural: Totem e Tabu, onde o assunto é a origem da sociedade; Psicologia coletiva e análise do ego, na qual faz a análise dos motivos que determinam a formação e a persistência dos grupos humanos. Autores ligados à Escola de Frankfurt, como Herbert Marcuse têm livros sobre as relações da psicanálise e cultura. Um dos livros em que Marcuse aborda a questão tem por título exatamente Cultura e Psicanálise (2001), reunindo ensaios acerca de temas como a função ideológica da cultura e a dominação dos indivíduos pela tecnociência a serviço do capital.
De autores brasileiros, um livro importante sobre esse assunto é o de Renato Mezan, Freud, pensador da cultura. Mezan é autor também de Sigmund Freud – A conquista do proibido, uma biografia do fundador da psicanálise, um livro pequeno no tamanho, mas valioso como introdução para leigos no assunto. É um dos títulos da excelente coleção Encanto Radical (editora Brasiliense), lançada nos anos 80 e que, após alguns anos esgotada, está sendo relançada em 2009. Nos anos 80, circulava a Rádice, uma das melhores revistas de psicologia já editadas no Brasil, responsável pela divulgação, no País, de renomados autores da antipsiquiatria, como Cooper (também ligado à psicoterapia existencial) e Basaglia... Hoje, infelizmente, pouco se fala da antipsiquiatria nos meios acadêmicos, mas ela deu uma contribuição importantíssima para uma maior humanização do trabalho psiquiátrico, não só com a luta antimanicomial, mas também nas abordagens teóricas. Nesse sentido, é bastante conhecido e igualmente importante o trabalho que a doutora Nise da Silveira, de formação junguiana, desenvolveu no Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro, onde estão trabalhos artísticos de pessoas portadoras de esquizofrenia tratadas por ela. Nise, por exemplo, não considerava a esquizofrenia como uma doença, mas como “um estado do Ser”. E, como na visão de Heidegger a linguagem é casa do Ser e que nessa morada habita o homem, vale registrar que, na contemporaneidade, Jurandir Freire Costa é um dos grandes teóricos brasileiros da psicanálise pragmática, que tem como uma das fontes, além do pensamento freudiano, a lingüística pragmática.
quarta-feira, 15 de julho de 2009
POEMA DE YEATS
William Butler Yeats
POLÍTICA
(Politics)
“No nosso tempo, o destino dos homens mostra o seu sentido em termos políticos” – Thomas Mann
Como posso eu, com essa moça ali,
Fixar a atenção
Na política russa,
Romana, ou de Madrid?
No entanto, há nesta reunião
Um homem competente e viajado,
Que sabe do que fala.
E temos um político conosco
Que já muito tem lido e meditado;
Pode bem ser que eles se enganem pouco
No que afirmam da guerra e seus ameaços;
Mas ai! se eu voltasse a ser novo
E a tivesse nos braços!
POLÍTICA
(Politics)
“No nosso tempo, o destino dos homens mostra o seu sentido em termos políticos” – Thomas Mann
Como posso eu, com essa moça ali,
Fixar a atenção
Na política russa,
Romana, ou de Madrid?
No entanto, há nesta reunião
Um homem competente e viajado,
Que sabe do que fala.
E temos um político conosco
Que já muito tem lido e meditado;
Pode bem ser que eles se enganem pouco
No que afirmam da guerra e seus ameaços;
Mas ai! se eu voltasse a ser novo
E a tivesse nos braços!
NOTÍCIA – Show musical
Odaíres interpreta canções de Mirabô em show no TCP
A cantora Odaíres apresenta show musical nesta quarta-feira (15/07) à noite, a partir das 20h no TCP – Teatro de Cultura Popular Chico Daniel, à rua Jundiaí, Tirol. No show, que faz parte da programação do Projeto Poticanto, Odaíres interpreta canções de Mirabô Dantas. A entrada é franca através de senhas antecipadas que podem ser retiradas no próprio Teatro, na Flamma Luminárias (Av. Prudente de Morais, 2005) ou Carne e Cia (Rua Apodi, 692).
Odaíres é uma das mais conhecidas cantoras de Natal. Iniciou carreira profissional nos anos 60, época em que casou com o músico Mirabô Dantas, ao lado de quem, e da irmã também cantora Terezinha de Jesus, participou dos festivais natalenses de músicas das décadas de 60 e 70. Desde então, tem participado ativamente da cena musical da cidade, seja em programas como o “Canto Geral”, da Televisão Universitária, da UFRN, ou em shows nos principais teatros de Natal.
O público há muito aplaude Mirabô como um dos mais talentosos e experientes compositores da MPB no Rio Grande do Norte, mas poucos sabem que ele vem de uma família que já deu alguns dos principais compositores da história da música no Estado. Além do próprio pai que tocava trombone, se destacam na família importantes nomes, como os músicos/compositores Tonheca Dantas e Felinto Lúcio.
As composições de Mirabô começaram a despertar a admiração do público potiguar principalmente a partir dos anos 70. Foi nessa época em que ele passou a ter uma projeção nacional, com canções suas gravadas por Elba Ramalho, Leci Brandão, Telma Soares, Maurício, Quinteto Violado, Terezinha de Jesus, Fagner, entre outros nomes da música popular brasileira.
A cantora Odaíres apresenta show musical nesta quarta-feira (15/07) à noite, a partir das 20h no TCP – Teatro de Cultura Popular Chico Daniel, à rua Jundiaí, Tirol. No show, que faz parte da programação do Projeto Poticanto, Odaíres interpreta canções de Mirabô Dantas. A entrada é franca através de senhas antecipadas que podem ser retiradas no próprio Teatro, na Flamma Luminárias (Av. Prudente de Morais, 2005) ou Carne e Cia (Rua Apodi, 692).
Odaíres é uma das mais conhecidas cantoras de Natal. Iniciou carreira profissional nos anos 60, época em que casou com o músico Mirabô Dantas, ao lado de quem, e da irmã também cantora Terezinha de Jesus, participou dos festivais natalenses de músicas das décadas de 60 e 70. Desde então, tem participado ativamente da cena musical da cidade, seja em programas como o “Canto Geral”, da Televisão Universitária, da UFRN, ou em shows nos principais teatros de Natal.
O público há muito aplaude Mirabô como um dos mais talentosos e experientes compositores da MPB no Rio Grande do Norte, mas poucos sabem que ele vem de uma família que já deu alguns dos principais compositores da história da música no Estado. Além do próprio pai que tocava trombone, se destacam na família importantes nomes, como os músicos/compositores Tonheca Dantas e Felinto Lúcio.
As composições de Mirabô começaram a despertar a admiração do público potiguar principalmente a partir dos anos 70. Foi nessa época em que ele passou a ter uma projeção nacional, com canções suas gravadas por Elba Ramalho, Leci Brandão, Telma Soares, Maurício, Quinteto Violado, Terezinha de Jesus, Fagner, entre outros nomes da música popular brasileira.
segunda-feira, 13 de julho de 2009
CRÔNICA – Dos cinemas de bairro ao multiplex
Poéticas da arte e indústria do cinema
Jóis Alberto
Quando uma criança vai pela primeira vez ao cinema, na atualidade, geralmente isso ocorre em Shopping Center, em salas multiplex muito confortáveis, para assistir as mais recentes superproduções, tanto em desenho animado, como em filmes. Mas houve uma época em que meninos e meninas descobriam a sétima arte freqüentando pequenos cinemas de bairro. Nos anos 60, quem viveu a infância no bairro natalense do Alecrim contava com alguns cinemas desse tipo, dentre os quais o melhor era o Cine São Luiz, cuja fachada eu conheci, embora nunca tenha assistido a uma sessão ali. Eu passava em frente ao São Luiz, quando ia com minha irmã, minha mãe ou meu pai para a Base Naval de Natal, a tratamento de saúde e lazer.
Foi no cinema da Base Naval, por volta de 1967, aos sete anos de idade, que vi um filme pela primeira vez: era um desenho animado de Disney ( não me lembro se vi primeiro “Branca de neve e os sete anões” ou “Pinóquio”...). Meu pai era funcionário civil da Base, trabalhando lá como marceneiro. A Marinha distribuía carteiras para os funcionários e dependentes freqüentarem o cinema. Fui a uma sessão noturna. São poucas as recordações desse dia, mas algumas reminiscências me acompanharam ao longo dessas mais de quatro décadas: o feixe da luz azulada e branca que saía do projetor para a tela; e “Pinóquio” no telão... Desde então aprendi a admirar o talento de Walt Disney, que apesar de, na vida real, politicamente ter tido posições muito reacionárias, ainda hoje eu concordo com a opinião geral: a obra artística deixada por ele continua sendo a de um dos maiores gênios da história do desenho animado. Criador de desenhos que são verdadeiras relíquias desse gênero, como os mencionados “Branca de Neve e os sete anões” e “Pinóquio”, além de “Dumbo”, “Fantasia” e “Mary Poppins” – neste, como se sabe, são usados simultaneamente desenho e atores, Disney ainda hoje, inegavelmente, continua sendo um dos gênios também das histórias em quadrinhos made in EUA, com Mickey, Pateta, Pato Donald, Zé Carioca... Depois, com o livro famoso de Ariel Dorfman e Armand Mattelart, “Para ler o Pato Donald”, que eu li no início dos anos 80, no curso de jornalismo da UFRN, passei a ver a influência dessa cultura de outra maneira, mas isso é outra história... Aliás, essa visão mais crítica surgiu bem antes da leitura desse livro, já que ainda na adolescência conheci HQ críticas, inclusive dos próprios EUA, como as pioneiras histórias de “Ferdinando” de Al Capp, depois, vindo da Argentina a “Mafalda”, de Quino, sem contar “Pererê”, de Ziraldo; os cartuns de Henfil, Nani no “Pasquim”; e ainda dos EUA a revista MAD e os desenhos do americano Robert Crumb na imprensa underground (via imprensa underground brasileira).
Quando minha família se mudou da Vila Naval, no Alecrim, para o conjunto residencial Potilândia, no bairro de Lagoa Nova, em 1969, eu voltei a assistir a alguns filmes em exibições gratuitas: uma sessão com documentário sobre lançamentos de foguetes americanos, no Sesc – os norte-americanos ainda não haviam pisado pela primeira vez no solo da lua, o que viria a ocorrer alguns meses depois; assisti ainda a outra sessão ao ar livre, com um filme religioso católico... Cheguei a freqüentar também algumas sessões num cinema popular que havia num galpão da av. 8 – não me lembro do nome do estabelecimento, porém me recordo de alguns filmes e cartazes: Tarzan, fitas de bang bang com Giuliano Gemma... Eu cheguei a conhecer o cine São Sebastião, um outro cine poeira do Alecrim da época e que se localizava na av. 10, mas só assisti por lá a duas ou três sessões...
Depois disso, ao me mudar com a minha família para o Rio de Janeiro, na adolescência assisti a algumas fitas de James Bond e, por volta dos 16 anos, os longas de karatê de Bruce Lee e a um filme erótico que marcou época no Brasil dos anos 70: Emanuelle! Aos 18 anos, voltei a morar em Natal. Comecei a freqüentar a vida noturna e, no roteiro de arte, cultura e lazer da época, um dos meus lugares prediletos era o Cine Clube Tirol (atualmente Cine Clube Natal), que então estava funcionando em dependência do prédio da Fundação José Augusto, no bairro de Petrópolis. Algum tempo depois o Cine Clube Tirol foi transferido para o auditório do Centro de Turismo. Foi nessa época, entre o final dos anos 70 e início da década de 80, que assisti aos primeiros filmes de arte. Além do cine clube, houve também uma boa iniciativa do Sindicato dos Bancários, na gestão do bancário e poeta Horácio Paiva, que promoveu sessões de cinema de arte no cine Rio Grande, no bairro da Cidade Alta, centro.
Foi no Cine Clube Tirol onde, por exemplo, assisti pela primeira vez ao “O Encouraçado Potemkim”, do grande diretor russo Sergei Eisenstein. Apesar de o filme abordar incidente ocorrido na insurreição de 1905 – e não propriamente na revolução soviética de 1917 –, mas como estávamos nos tempos da ditadura militar brasileira, confesso que assisti, com temor e preocupação, a esse e a outros filmes políticos exibidos no cine clube. Embora fosse o tempo de abertura política no Brasil, que permitiu um pouco mais de liberdade, por outro lado o medo e a paranóia infelizmente ainda faziam parte do cotidiano de muitos brasileiros, porque a extrema direita e os militares da linha dura ameaçavam, a todo momento, retrocesso político, como os jornais daqueles tempos noticiavam com muita freqüência. Felizmente, tanto no Brasil, quanto no exterior – até mesmo com o governo democrático de Jimmy Carter, nos EUA -, as pressões por liberdade política e por um pleno restabelecimento da democracia aumentavam a cada dia. Um dos momentos mais significativos desse contexto ocorreu em 1979, ano da anistia política, que permitiu liberdade para os presos políticos no Brasil e o retorno dos exilados, como Luis Carlos Prestes, Leonel Brizola, Fernando Gabeira..., para citar os nomes mais conhecidos dentre os que se destacavam no noticiário da época.
Da sessão do cinema de arte do Cine Rio Grande, me lembro de ter assistido, dentre outros, ao longa “Esse obscuro objeto do desejo”, de Buñuel, um dos cineastas que desde então figura entre os meus prediletos. Nessas ocasiões, cheguei a vender alguns exemplares do meu livro de poesia editado em mimeógrafo, “Trabalho de Poeta”, para eventuais compradores que estavam na fila do cinema. Mas isso – as peripécias, erros e acertos da chamada geração da poesia marginal ou de mimeógrafo – também é outra história, que brevemente pretendo abordar aqui no blog.
Jóis Alberto
Quando uma criança vai pela primeira vez ao cinema, na atualidade, geralmente isso ocorre em Shopping Center, em salas multiplex muito confortáveis, para assistir as mais recentes superproduções, tanto em desenho animado, como em filmes. Mas houve uma época em que meninos e meninas descobriam a sétima arte freqüentando pequenos cinemas de bairro. Nos anos 60, quem viveu a infância no bairro natalense do Alecrim contava com alguns cinemas desse tipo, dentre os quais o melhor era o Cine São Luiz, cuja fachada eu conheci, embora nunca tenha assistido a uma sessão ali. Eu passava em frente ao São Luiz, quando ia com minha irmã, minha mãe ou meu pai para a Base Naval de Natal, a tratamento de saúde e lazer.
Foi no cinema da Base Naval, por volta de 1967, aos sete anos de idade, que vi um filme pela primeira vez: era um desenho animado de Disney ( não me lembro se vi primeiro “Branca de neve e os sete anões” ou “Pinóquio”...). Meu pai era funcionário civil da Base, trabalhando lá como marceneiro. A Marinha distribuía carteiras para os funcionários e dependentes freqüentarem o cinema. Fui a uma sessão noturna. São poucas as recordações desse dia, mas algumas reminiscências me acompanharam ao longo dessas mais de quatro décadas: o feixe da luz azulada e branca que saía do projetor para a tela; e “Pinóquio” no telão... Desde então aprendi a admirar o talento de Walt Disney, que apesar de, na vida real, politicamente ter tido posições muito reacionárias, ainda hoje eu concordo com a opinião geral: a obra artística deixada por ele continua sendo a de um dos maiores gênios da história do desenho animado. Criador de desenhos que são verdadeiras relíquias desse gênero, como os mencionados “Branca de Neve e os sete anões” e “Pinóquio”, além de “Dumbo”, “Fantasia” e “Mary Poppins” – neste, como se sabe, são usados simultaneamente desenho e atores, Disney ainda hoje, inegavelmente, continua sendo um dos gênios também das histórias em quadrinhos made in EUA, com Mickey, Pateta, Pato Donald, Zé Carioca... Depois, com o livro famoso de Ariel Dorfman e Armand Mattelart, “Para ler o Pato Donald”, que eu li no início dos anos 80, no curso de jornalismo da UFRN, passei a ver a influência dessa cultura de outra maneira, mas isso é outra história... Aliás, essa visão mais crítica surgiu bem antes da leitura desse livro, já que ainda na adolescência conheci HQ críticas, inclusive dos próprios EUA, como as pioneiras histórias de “Ferdinando” de Al Capp, depois, vindo da Argentina a “Mafalda”, de Quino, sem contar “Pererê”, de Ziraldo; os cartuns de Henfil, Nani no “Pasquim”; e ainda dos EUA a revista MAD e os desenhos do americano Robert Crumb na imprensa underground (via imprensa underground brasileira).
Quando minha família se mudou da Vila Naval, no Alecrim, para o conjunto residencial Potilândia, no bairro de Lagoa Nova, em 1969, eu voltei a assistir a alguns filmes em exibições gratuitas: uma sessão com documentário sobre lançamentos de foguetes americanos, no Sesc – os norte-americanos ainda não haviam pisado pela primeira vez no solo da lua, o que viria a ocorrer alguns meses depois; assisti ainda a outra sessão ao ar livre, com um filme religioso católico... Cheguei a freqüentar também algumas sessões num cinema popular que havia num galpão da av. 8 – não me lembro do nome do estabelecimento, porém me recordo de alguns filmes e cartazes: Tarzan, fitas de bang bang com Giuliano Gemma... Eu cheguei a conhecer o cine São Sebastião, um outro cine poeira do Alecrim da época e que se localizava na av. 10, mas só assisti por lá a duas ou três sessões...
Depois disso, ao me mudar com a minha família para o Rio de Janeiro, na adolescência assisti a algumas fitas de James Bond e, por volta dos 16 anos, os longas de karatê de Bruce Lee e a um filme erótico que marcou época no Brasil dos anos 70: Emanuelle! Aos 18 anos, voltei a morar em Natal. Comecei a freqüentar a vida noturna e, no roteiro de arte, cultura e lazer da época, um dos meus lugares prediletos era o Cine Clube Tirol (atualmente Cine Clube Natal), que então estava funcionando em dependência do prédio da Fundação José Augusto, no bairro de Petrópolis. Algum tempo depois o Cine Clube Tirol foi transferido para o auditório do Centro de Turismo. Foi nessa época, entre o final dos anos 70 e início da década de 80, que assisti aos primeiros filmes de arte. Além do cine clube, houve também uma boa iniciativa do Sindicato dos Bancários, na gestão do bancário e poeta Horácio Paiva, que promoveu sessões de cinema de arte no cine Rio Grande, no bairro da Cidade Alta, centro.
Foi no Cine Clube Tirol onde, por exemplo, assisti pela primeira vez ao “O Encouraçado Potemkim”, do grande diretor russo Sergei Eisenstein. Apesar de o filme abordar incidente ocorrido na insurreição de 1905 – e não propriamente na revolução soviética de 1917 –, mas como estávamos nos tempos da ditadura militar brasileira, confesso que assisti, com temor e preocupação, a esse e a outros filmes políticos exibidos no cine clube. Embora fosse o tempo de abertura política no Brasil, que permitiu um pouco mais de liberdade, por outro lado o medo e a paranóia infelizmente ainda faziam parte do cotidiano de muitos brasileiros, porque a extrema direita e os militares da linha dura ameaçavam, a todo momento, retrocesso político, como os jornais daqueles tempos noticiavam com muita freqüência. Felizmente, tanto no Brasil, quanto no exterior – até mesmo com o governo democrático de Jimmy Carter, nos EUA -, as pressões por liberdade política e por um pleno restabelecimento da democracia aumentavam a cada dia. Um dos momentos mais significativos desse contexto ocorreu em 1979, ano da anistia política, que permitiu liberdade para os presos políticos no Brasil e o retorno dos exilados, como Luis Carlos Prestes, Leonel Brizola, Fernando Gabeira..., para citar os nomes mais conhecidos dentre os que se destacavam no noticiário da época.
Da sessão do cinema de arte do Cine Rio Grande, me lembro de ter assistido, dentre outros, ao longa “Esse obscuro objeto do desejo”, de Buñuel, um dos cineastas que desde então figura entre os meus prediletos. Nessas ocasiões, cheguei a vender alguns exemplares do meu livro de poesia editado em mimeógrafo, “Trabalho de Poeta”, para eventuais compradores que estavam na fila do cinema. Mas isso – as peripécias, erros e acertos da chamada geração da poesia marginal ou de mimeógrafo – também é outra história, que brevemente pretendo abordar aqui no blog.
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