Jornalismo Arte Cultura Filosofia Literatura Psicanálise Marxismo e Pós Marxismo
quarta-feira, 1 de julho de 2009
POEMA de Verlaine
PAUL VERLAINE
SÓIS POENTES
(Soleils couchants)
Uma aurora fria
Pelo campo estende
A melancolia
De sóis no poente.
A melancolia
Canta docemente
Pra quem se extasia
Com sóis no poente.
Sonhos singulares
Como sóis que, velhos,
Se deitam nos mares,
Fantasmas vermelhos,
Desfilam nos ares,
Desfilam, parelhos
A grandes sóis velhos
Morrendo nos mares.
POEMA de Baudelaire
A BELEZA
(La Beauté)
Eu sou bela, ó mortais, como espectro de pedra,
Meu seio, que buscais apertando-os com dor,
Fez-se para inspirar ao poeta um amor
Eterno e mudo assim como a própria matéria.
Sou, no trono do azul, incompreendida esfinge,
Tenho neve no peito e a cor do cisne é a minha;
Odeio o movimento que desmancha a linha,
E, do riso e do choro, a voz nunca me atinge.
Os poetas, ao ver-me as grandes atitudes,
Que pareço ir busca às catedrais gigantes,
Consumirão a vida em vãs tarefas rudes.
Pois tenho, pra encantar esses dóceis amantes,
Um espelho claro aonde as coisas são mais belas:
O olhar, meu vasto olhar, fulgurante de estrelas.
sexta-feira, 26 de junho de 2009
CRÔNICA – Paixão, vida e morte de um ídolo
Jóis Alberto
A morte de Michael Jackson, em 25/06/2009, na cidade de Los Angeles, Estados Unidos, pegou o mundo de surpresa. Vítima de uma parada cardíaca, Michael Jackson foi levado às pressas para o pronto socorro, e, apesar de todos os esforços dos médicos para reanimá-lo, entrou em coma, vindo a falecer poucos minutos depois. A surpresa foi maior porque ele, apesar de alguns problemas de saúde, não aparentava correr esse risco de fatalidade e vinha se preparando para uma grande turnê de shows pela Inglaterra, tendo como meta principal entrar numa nova fase de sua carreira profissional, abalada, como se sabe, por escândalos, processos e endividamentos.
As melhores lembranças que sempre guardei e vou guardar da biografia desse grande ídolo pop são as da época da adolescência, em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, na primeira metade dos anos 70. Me lembro, com ternura, da emoção de escutar “Ben”, na voz de Michael, quando este fazia parte do The Jackson 5 e, concomitantemente, iniciava carreira solo. Ouvia na rádio AM Mundial, do Rio, e nas festas, nos bailes juvenis do clube do bairro e da escola, que eu, ainda muito garotão, freqüentava. Sabia pouco inglês, um idioma que nunca foi meu forte, e junto com um amigo do bairro onde morava, traduzíamos algumas das letras de músicas cantadas em inglês – não só por americanos como os Jackson 5, mas também por clones brasileiros, como Morris Albert, com sua “Feelings”.
Vários vizinhos meus na Baixada Fluminense, em especial os da comunidade negra, gostavam do soul, principalmente de James Brown (“Get up”, “I feel like being a sex machine”, dentre outras gravações clássicas), usavam roupas e o cabelo no estilo do movimento Black Power, imitando o visual e o jeito de dançar desse outro ídolo da música negra americana. Curtiam ainda outros, como Stevie Wonder, que eu também admirava... No entanto, devido principalmente às minhas dificuldades em aprender o idioma inglês, eu gostava mais de ouvir o soul brasileiro de Cassiano, Hildon e de Tim Maia, que por essa época era adepto de um grupo religioso (em que todos usam roupas brancas) e morava na Baixada. No início dos anos 70, assistia também aos desenhos animados do Jackson 5, seriados americanos que marcaram época como o excelente Túnel do Tempo, e japoneses como Robô gigante, à tarde; além de reprises de desenhos como Speed Race, e outros seriados como o brasileiro Vigilante rodoviário, e o nipônico National Kid passavam pela manhã e assistia quando não estava na escola.
Em 1978, eu, que sou natalense e havia ido morar no Rio em 1970, voltei a residir em Natal, com a minha família, e aqui passei a ouvir mais o rock, principalmente o rock brasileiro, passando também, aos 18 anos, a curtir a vida noturna na Praia dos Artistas, ao lado de uma turma a respeito da qual ainda hoje eu guardo muito afeto: o poeta João Batista de Morais Neto, que à época usava o pseudônimo João da Rua; o artista plástico Novenil; Socorro (Help), cantando a sempre emocionante “Vapor Barato” (Jards Macalé/Waly Salomão), a enigmática “Araçá Azul” (de Caetano Veloso), a engajada “Pesadelo” (Maurício Tapajós/Paulo César Pinheiro), dentre outras belas canções da época, ao som do violão de Jorge Macedo; além de outros amigos. Aos 18 anos, eu era tímido e inexperiente, em meio a uma turma que, embora na mesma faixa etária, já era bem experimentada na vida noturna daquela parte da orla natalense, com seus botecos como o Pé do Gavião; a Tenda do Cigano, Praia do Meio; o Iara Bar, na praia de Areia Preta, dentre outros.
Como mestiço que sou, filho de pai mestiço e mãe branca, sempre me identifiquei com o movimento negro, embora não como militante. Inicialmente, curtindo a black music, que possibilitou o meu primeiro contato, as minhas primeiras reflexões sobre a questão racial. Ao mesmo tempo em que aos 16, 17 anos, ia aprimorando meu gosto musical, agora ouvindo a rádio carioca Roquette-Pinto que transmitia uma excelente programação musical (excelente pelo menos à época em que morei no Rio, não sei se continua com a mesma qualidade, porque desde 78 não retornei ao RJ), também passei a curtir o prazer da leitura, freqüentando biblioteca pública e comprando jornais da imprensa alternativa, de esquerda. Primeiro, o “Pasquim”, depois outros como os excelentes “Versus”, “Movimento”, “Opinião” em que eu ia me esclarecendo a respeito de raças, etnias e outras questões. Tanto que nessa época, em que eu começava na poesia, escrevi o poema “Raça”, dedicado a um dos grandes líderes do movimento negro brasileiro, Abdias Nascimento:
RAÇA
negra nega
nega a tua alma branca
nega a copa e cozinha
nega, a história do Brasil:
nega negaram
a raça de grandes homes negros
nega, não nega
o teu cabelo a tua raça.
Quanto à questão da negritude nos EUA e no mundo, Michael Jackson tomava atitudes polêmicas, como a de fazer operações plásticas no rosto para adquirir características físicas de branco, ao mesmo tempo em que fazia campanhas filantrópicas milionárias no show business de apoio às populações pobres da África, se encontrava com líderes negros históricos como Nelson Mandela... No Brasil, tornou-se marcante a passagem dele pelo país para gravar vídeoclips em favela carioca e ao lado de banda musical afro-brasileira, num dos videoclips mais conhecidos dele, que reconhecidamente foi um dos maiores inovadores dessa linguagem visual. Hoje, por trágica ironia da História, Michael Jackson morre no mesmo ano em que o primeiro presidente negro dos EUA, Barack Obama, inicia uma trajetória política pela qual milhões de pessoas torcem, e eu também, para que seja sempre democrática e repleta de êxitos até o final do mandato, embora não seja uma tarefa nada fácil, por causa da maldita herança política e econômica deixada pelos Bush.
Os primeiros grandes líderes negros dos EUA foram, nos anos 60, Martin Luther King, o ativista político Malcom X e o pugilista Cassius Clay, que ao se converter ao islamismo mudou seu nome para Muhammad Ali. Junto às lutas políticas por direitos civis, os negros americanos se destacavam não só nos esportes, mas também na música (é importantíssimo o papel da gravadora Motown e do produtor musical Quincy Jones), no cinema (atores como Sidney Poitier, Morgan Freeman, atrizes como Whoopi Goldberg, cineastas como Spike Lee, embora um dos melhores filmes com música negra americana não seja dele, mas de John Landis, a sempre divertida comédia musical “Os irmãos cara-de-pau”), na TV (notadamente a apresentadora Oprah Winfrey), na literatura (primeiramente James Baldwin e depois, na contemporaneidade, a poesia black de Amiri Baraka (ex-Leroi Jones), e da poetisa Wanda Coleman...). Isso sem entrar em maiores detalhes sobre o sucesso de gênios do jazz, como Louis Armstrong, Billie Holliday, Ella Fitzgerald, Charlie Parker, Miles Davis, John Coltrane, Ornette Coleman, Duke Ellington; do blues, como Robert Johnson, Bessie Smith, John Lee Hooker, Ray Charles, Muddy Waters, B.B. King; e do rock, como Jimi Hendrix, que está no mesmo panteão de gigantes da música pop de língua inglesa, como os Beatles, Janis Joplin, Jim Morrison; do reggae, com Bob Marley. Aos quais, sem dúvidas, vem se juntar Michael Jackson, a quem, independente de qualquer questão, presto este meu tributo, em especial pelos bons momentos dele dos anos 60 a 80.
sábado, 20 de junho de 2009
VIDA DE JORNALISTA
Nesse período de 15 anos, por outro lado, aconteceram as mudanças decorrentes da revolução na informática e telecomunicações, como celular, a internet e sites de busca como o google, que facilitam a coleta de informações. Assim, teoricamente, qualquer profissional de nível técnico ou superior de outras áreas estaria em condições de produzir textos jornalísticas. O problema, porém, é que não é tão fácil ser repórter. É um eterno aprendizado. E na minha opinião, o bom jornalista profissional é antes de tudo um bom repórter. Os juízes do Supremo alegaram que comunicação social, com jornalismo e outras habilitações, não são ciência. E por acaso o curso de Direito é ciência (no sentido positivista da palavra como eles usam)? É uma questão acadêmica, eu sei. Mas vai tentar derrubar a exigência do diploma para o exercício da profissão de advogado, para ver como esses profissionais, juizes, promotores, etc, são altamente corporativistas. É aquela história: pimenta nos olhos dos outros é refresco!
Por isso, como jornalista profissional diplomado, sou antes de tudo repórter.
Jóis Alberto
quarta-feira, 17 de junho de 2009
LAZER NA CAPITAL POTIGUAR
A noite de Ponta Negra, com bares, pubs, restaurantes e boates, tanto na orla marítima quanto em outras partes do bairro, como o trecho ao lado do Praia Shopping, é uma das atrações para quem procura lazer em Natal. Na Ribeira, bairro histórico da cidade, o visitante pode marcar um encontro com as artes no secular Teatro Alberto Maranhão, ou então no Espaço Cultural Casa da Ribeira, um dos destaques do roteiro artístico e cultural natalense. Das praças de alimentação de shopping, as mais movimentadas e badaladas são a do Midway Mall, em Lagoa Nova; Praia Shopping, em Ponta Negra; e Natal Shopping, na BR 101, no bairro de Candelária. No Centro de Turismo, em Petrópolis, se encontram lojas de artesanato e o tradicional Forró com Turista. Para quem deseja um contato direto com a fauna e flora local, além de fazer caminhadas e conhecer as trilhas de uma das maiores áreas verdes da cidade, a dica é passear pelo Parque das Dunas, um espaço cultural que passou por recentes reformas. Lá, além de parque infantil, periodicamente são realizados shows musicais ao ar livre, nas tardes de domingo.
TEATRO ALBERTO MARANHÃO – O centenário teatro é um dos mais tradicionais espaços culturais da cidade. Praticamente todos os dias tem espetáculos em exibição. Toda terça-feira, por exemplo, tem o Projeto Seis e Meia, shows musicais com cantores de fama nacional e atrações locais, a partir das 18h30. Praça Augusto Severo, Ribeira. Tel: (84) 3222 3669.
TCP – TEATRO DE CULTURA POPULAR. Um dos mais novos espaços culturais de Natal, o TCP também é palco não só de teatro, mas também de outros eventos, como sessões de cinema. Rua Jundiaí, 641, Tirol. (84) 3232 5307.
CINEMAS – Salas do Moviecom, no Praia Shopping, em Ponta Negra, fones 3236 3350 e 3236 3450; e do Cinemark, no Shopping Midway Mall, em Lagoa Nova, fone 3646 3424.
CASA DA RIBEIRA—Localizada em casarão de 1911, totalmente restaurado e que em 2001 tornou-se um dos mais badalados abrigos da arte e dos artistas em Natal, o Espaço Cultural Casa da Ribeira é formado por um teatro com 164 lugares, uma sala de arte contemporânea e um café cultural. No teatro, além de apresentações de peças, ocorrem com freqüência espetáculos de dança e música, num ambiente com tratamento de acústica especializado e central de ar-condicionado. Na sala de arte contemporânea, acontecem exposições periódicas. Informações no 3211 7710. Nesse bairro, se encontram outros espaços culturais, bares e restaurantes, além de periodicamente ser palco de eventos musicais, como shows de rock, e mostras de cinema.
CENTRO DE TURISMO – O prédio foi construído por volta do final do séc. 19, em linhas arquitetônicas neoclássicas, e já foi orfanato e prisão. Desde 1976, abriga o Centro de Turismo, com 36 lojas de artesanato. Conta também com uma ampla galeria de arte e antiguidades, onde se encontra um grande e variado acervo. Cada loja de artesanato ocupa uma das antigas celas de prisão. Funciona diariamente, das 9 às 18h. De lá se vê uma bela paisagem da cidade, da orla marítima e do rio Potengi. Conta com restaurante de comida regional e lanchonete. Apresentações de shows folclóricos e o tradicional Forró com Turista, evento este realizado todas as quintas-feiras à noite, a partir das 22h, há mais de duas décadas, animando visitantes e o público natalense. Rua Aderbal de Figueiredo, 980, Petrópolis, fones 3211 6149 e 3211 6218.
MERCADO DE PETRÓPOLIS – Lá, você encontra também boxes com lojas de alguns dos mais conhecidos sebos (venda de livros usados) da cidade, além da sede do Cine Clube Natal e o Pub Papo Furado. Av. Hermes da Fonseca, no bairro de Petrópolis.
PARQUE DAS DUNAS – O Parque Estadual Dunas de Natal “Jornalista Luís Maria Alves” possui 1.172 hectares de mata nativa, 8,5 km de comprimento e uma largura média de 2 km. Como área integrante da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica Brasileira, é de fundamental importância para a qualidade de vida da população em Natal . O Bosque dos Namorados, localizado no bairro de Morro Branco, é o portão de entrada do Parque. O bosque dispõe de centro de visitantes, centro de pesquisas, oficina de educação ambiental e artes, parque infantil, anfiteatro, lanchonete, áreas de jogos e descanso. No anfiteatro Pau Brasil, são realizados, no domingo à tarde, shows do projeto Som da Mata, atraindo público de todas as idades. Aberto à visitação pública de terça-feira a domingo, e feriados. Entrada no bosque: R$ 1,00. Para caminhar nas trilhas, mais R$ 1,00.
FORTE DOS REIS MAGOS – O mais conhecido e freqüentado patrimônio histórico da cidade. De lá, se tem uma das mais belas paisagens da orla marítima de Natal e da bela Ponte Newton Navarro, ligando bairros centrais de Natal à Praia da Redinha e litoral Norte. A Fortaleza localiza-se na Praia do Forte.
MUSEU DE CULTURA POPULAR DJALMA MARANHÃO – Um dos mais novos museus da cidade, com rico acervo da cultura popular e atualizados recursos multimídias. Visitas de terça a sexta, de 9h às 17h. Sábados, domingos e feriados facultativos, das 10 às 17h. Praça Augusto Severo, bairro da Ribeira. Fone: 3232 8149.
POEMA
Jóis Alberto Revorêdo
Escrever poesia é uma arte difícil
É destruição do velho, é criação do novo.
Para antigos futuristas, é poético um míssil
Que destrói cidades e seres vivos.
Das ruínas, nascerão civilizações
Baseadas na competição e no egoísmo.
Automóveis, aviões, foguetes, globalizações,
Macdonaldizações e consumismo.
Mas a poesia mais bela é a da paz
É o carinho do casal de anciãos
É o beijo da moça na boca do rapaz
É a criança brincando com o balão
É a fraternidade da justiça social
É Marx lutando contra injustiças do capital.
FONTE: “Poetas azuis paixões vermelhas amores amarelos” (poesia e prosa), de Jóis Alberto Revorêdo, Natal(RN): Sebo Vermelho, 2003. O poema acima foi publicado originalmente no caderno especial do Diário de Natal, comemorativo ao Dia Nacional da Poesia, em 14 de março de 2001.
terça-feira, 16 de junho de 2009
ARTES VISUAIS/Mercado natalense
Jóis Alberto
Jornalista profissional
O mercado de artes plásticas ou artes visuais em Natal está em alta. Com cerca de uma dezena de galerias atuantes e profissionais, a capital potiguar tem um movimento no setor que nada deixa a dever a cidades maiores. Nesse sentido, transcrevo e atualizo, aqui, trechos de reportagem que escrevi para a revista Brouhaha número 8 em março/abril de 2007. Na ocasião visitei galerias, entrevistei marchands, galeristas e dirigentes culturais, num levantamento sobre a situação desse mercado, que até bem pouco tempo atrás parecia pequeno e restrito a poucos, mas que hoje se revela muito promissor e competitivo. Uma das tendências atuais do mercado é a do artista transformar seu ateliê em galeria de artes, como por exemplo o ateliê do artista Flávio Freitas, no bairro histórico da Ribeira. De olho num negócio que cresce não só pela democratização da arte, mas também à medida em que a cidade vive um crescente boom imobiliário, com edifícios residenciais e condomínios de alto padrão surgindo a todo momento, lojas de decoração de interiores também comercializam obras de arte, além de se registrar a abertura de galerias em alguns shoppings centers da cidade.
O perfil tradicional da clientela de artes visuais na cidade é formado principalmente por natalenses possuidores de um bom nível cultural e boa situação financeira, notadamente profissionais de classe média, como professores universitários, médicos, advogados. A esse público, somam-se outros, como pessoas que vêm de outros Estados e países em visita ou para fixar residência na cidade. Embora a maior parte dos turistas venham a Natal principalmente em busca de praias e lazer, muitos deles não se limitam apenas a comprar peças de artesanato, adquirem também arte naif regional e xilogravuras em visitas ao Centro de Turismo, em Petrópolis. É lá que desde a década de 80 está instalada a Galeria de Arte Antiga e Contemporânea, de propriedade do professor universitário Antônio Marques, um dos marchands e galeristas pioneiros da fase atual do mercado. Essa galeria tem obras de todos os estilos, predominando entretanto a arte regional, naif e sacra, em pintura, cerâmica, xilogravuras, com obras de artistas como a santeira Luzia Dantas; Iaperi Araújo, Assis Marinho, e do elogiado xilogravador J. Borges. (...)
PRINCIPAIS
GALERIAS DE ARTE
A Pinacoteca do Estado, as galerias da Fundação Capitania das Artes, do NAC – Núcleo de Arte e Cultura da UFRN e do Sesc de Natal (bairro Cidade Alta), são os mais atuantes espaços destinados à exibição de artes visuais na cidade. Instalada em prédio secular, de linhas neoclássicas e dois pavimentos, que durante muitos anos foi sede do Palácio Potengi, por onde passaram várias administrações do Governo do Estado, a Pinacoteca – que atualmente se prepara para passar por um processo de reforma do prédio – tem uma finalidade mais museológica do que os dois outros espaços citados, embora estes possuam também valiosos acervos. Localizada na Praça Sete de Setembro, Centro, a Pinacoteca reúne trabalhos de artistas locais e nacionais das fases pré-modernista, modernista e contemporânea. A pré-modernista, de caráter mais acadêmico, e que se caracteriza pela utilização de técnicas tradicionais como a de tinta a óleo sobre tela, com representações figurativas naturalistas, teve em Natal artistas como os pintores Joaquim Fabrício Gomes de Souza, Moura Rabelo, e o escultor Hostílio Dantas. Desta fase, a Pinacoteca conta com o quadro “Julgamento do Padre Miguelinho”, de Antonio Parreiras, artista carioca nascido em 1860 e falecido em 1937. Estudou na Academia Imperial de Belas Artes com Vitor Meireles. Outra obra de destaque é o óleo sobre tela “Augusto Severo e Sachet”, de Moura Rabelo, nascido em Natal em 1895 e falecido em 1979.
Da arte moderna nacional, a Pinacoteca conta com as litogravuras “Mastro”, de Alfredo Volpi, “Jardim com Figuras I ”, de Cícero Dias, e “Paisagem”, de Fayga Ostrower; a serigrafia “Louvor à natureza”, de Tarsila do Amaral ; a gravura em metal “Galo”, de Aldemir Martins. Da arte moderna local, a aquarela sobre papel “Bumba-meu-boi”, de Newton Navarro; o acrílico sobre tela “Casario”, de Dorian Gray Caldas, dentre outros. Da arte contemporânea, um acrílico com relevo “Sem título”, de Abraham Palatnik. No acervo da Pinacoteca, destacam-se ainda uma raridade da cultura internacional, o Budda do Laos, uma relíquia do final do século 12, procedente do Laos, na Ásia. A escultura é de chumbo e banhada em ouro, já desgastado em algumas partes. Foi doada pelo colecionador suíço Fritz Alain Gegauf, que residiu em Natal.
Dentre os espaços públicos de exposição de artes visuais – a Pinacoteca; o Solar Bela Vista, conquanto este espaço, a exemplo da Galeria do Sesc, seja administrado por instituições da iniciativa privada (Fiern/Sesi); a Galeria Conviv´art da UFRN e as Galerias da Fundação Capitania das Artes, a arte contemporânea está mais presente nas duas últimas, embora também realizem exposições de obras de arte que usam técnicas tradicionais e modernas. (...) A Conviv´art comercializa as obras expostas, mas o NAC não tem finalidade lucrativa. Em contrapartida, de acordo com Edital, solicita-se ao artista a doação de uma obra artística, com objetivo de compor o acervo de artes visuais da UFRN, administrado pelo NAC.
ARTE CONTEMPORÂNEA
Realizada geralmente sem objetivos comerciais, e muitas vezes questionando a própria finalidade lucrativa no setor, as artes visuais contemporâneas têm na Sala de Exposições da Casa da Ribeira o principal espaço expositor em Natal. O espaço cultural Casa da Ribeira foi fundado em março de 2001, com um trabalho na área teatral, do grupo Clowns de Shakespeare, mas desde o início já havia a idéia de abrir o espaço também para as artes visuais. De março a setembro daquele ano foram feitas algumas exposições, mas a arte exposta não estava provocando, instigando o público. A partir da exposição de arte contemporânea de José Rufino, que trabalha com instalações, materiais orgânicos, monotipia, refletindo sobre a memória perdida no Brasil, o público foi provocado, houve reação e participação da platéia. Desde então, a Sala de Exposições foi destinada exclusivamente à arte contemporânea. Importantes nomes da arte contemporânea do Brasil, vindos de outros Estados, como a artista mineira Rosângela Rennó, que trabalha com repropriação, mas que para a Casa da Ribeira fez uma videoinstalação, em 2005; a fotógrafa gaúcha radicada em São Paulo, Rochelle Costi, em 2003, quando fez um site specific, que é um projeto pensado para o espaço expositivo, com todas as fotos feitas em Natal; a carioca e radicada no Rio Grande do Sul Lia Menna Barreto, que encontrou no comércio popular do Alecrim, produtos com bonecas, panos de bandeja com renda, que foram prensados para o trabalho artístico. E mais: Eduardo Frota, Mauro Piva, Gil Vicente, dentre outros.
Alguns desses artistas se destacam em nível nacional e internacional. Rosãngela Rennó, por exemplo, vendeu em 2006 uma videoinstalação para o Tate Modern, principal museu de Londres. Como o segmento de arte contemporânea na cidade vem se profissionalizando e se atualizando com maior rapidez há poucos anos, a produção de arte visual contemporânea local ainda é pequena, mas reúne nomes muito atuantes e talentosos como Guaraci Gabriel, Sayonara Pinheiro, Isaías Ribeiro, João Natal, Selma Bezerra, Marcelo Gandhi e o sempre pioneiro J. Medeiros. Muito antes deles, o natalense Abraham Palatnik foi um dos fundadores das tendências contemporâneas nas artes plásticas no Brasil, como a arte cinética. Se Palatnik teve um dos seus trabalhos incompreendido na 1ª Bienal de Artes de São Paulo, nos anos 50, imagine qual seria a recepção da obra na Natal daquela época. Ainda hoje existe gente na cidade que vê com preconceitos muitas das propostas da arte visual contemporânea. (...)
FONTE: Trechos de matéria, de autoria do jornalista Jóis Alberto, publicada originalmente na revista Brouhaha (março/abril de 2007), da Fundação Cultural Capitania das Artes, órgão da Prefeitura de Natal.